quinta-feira, 1 de maio de 2008

Babel espanhola

Outro dia revelei o mico de um colega que não sabia espanhol e se enrolou com a língua no sentido físico e abstrato da coisa. Mas saber falar o idioma de Cervantes não te livra de enrascadas. Se as diferenças lingüísticas entre Brasil e Portugal já inspiram um milhão de piadas, imagine conviver com gente de 10 nacionalidades diferentes que falam espanhol? No afã de aumentar meu vocabulário, fui incorporando um regionalismo aqui, outro ali quando vivi em Madri e me metendo em situações embaraçosas. Às vezes soltava uma frase cândida na Espanha que era a maior sacanagem na Argentina.

Logo que cheguei, o problema era a pronúncia. Para que fazer o CH soar como TCH se a palavra era igualzinha em português, por exemplo? Se eles entendem o meu chocolate, tá bom, pensei. Fui usar a mesma lógica para o RR. `Estava atrasada e tive que correr por todo el metro´. Também tasquei um ´Rubinho não é bom corredor´. Sem vibrar a língua no céu da boca, o meu correr e corredor soaram como coger e cogedor para eles. Se estivesse só no meio de espanhóis, menos mal, mas diante de 18 latinos... O grupo explodiu numa gargalhada feroz. Coger é transar e cogedor é garanhão na América do Sul. Tinha acabado de dizer que eu era uma versão sobre trilhos da ´Dama do Lotação´.

A pior armadilha foi um iogurte de morangos. Li lá na embalagem: con trozos de fresa. Não ia continuar usando a palavra pedazos si existia outra, mais diferente do português, mais sofisticada. Legal, desde aquela compra no supermercado meus pedaços viraram trozos. Até que um dia depois do jantar, eu e três argentinos reunidos na cozinha, virei para o meu amigo -- que é praticamente um modelo Armani -- e pedi com a maior gentileza do mundo para que ele me desse, por favor, un trozo de seu chocolate. Ele me respondeu com um sorriso sacana e um dueto de gargalhadas ao fundo. Na verdade eu pedira aquilo dele. Ai, ai.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Chamem as garças

No Norte do estado do Rio de Janeiro, um prefeito estava eufórico com a despoluição do rio que corta a cidadezinha. E queria dar publicidade para a façanha de qualquer maneira. O tema dominou a reunião de secretariado. O desafio empolgou as autoridades. Algumas horas e litros de cafezinho depois a idéia nasceu. E contagiou o alcalde.

- Vai dar até no Jornal Nacional! - emocionou-se o prefeito, já sonhando com a imagem na abertura do telejornal.

A prova de que o curso d´água outrora fedorento estava limpo era linda e singela e comoveria o editor-chefe. Estavam todos convencidos disso.

- Vamos jogar umas garças para nadar lá e aí chamamos a tevê - gritou um secretário, como quem diz eureca!

Uma alma de bom senso na mesa sugeriu primeiro um teste. Foi difícil conter os empolgados, mas, enfim, a turma cedeu. Não sem antes exigir a execução de mais um detalhe.

- Depois a gente compra uns peixes para colocar no rio também - acrescentou o gênio.

A idéia morreu na nascente do rio: a garça virou almoço de vira-lata em dois dias.

A língua capciosa

Um amigo aqui do Rio decidiu passar as férias no litoral catarinense. Já faz um bom tempo, na época os argentinos nem sabiam o que era corralito nem tinham inventado o panelaço. Um peso valia um dólar e eles invadiram a nossa praia com mais fome que nunca. A farra por conta do câmbio era tanta que o apelido deles nas areias lá do Sul era dame dos. Achavam tudo barato e pediam sempre em dobro: dois milhos, duas cervejas, duas caipirinhas...

A praia estava cheia de jovens argentinas calientes também. E uma delas se encantou pelo meu amigo alto e dourado pelo sol. Ele não sabe nem contar em espanhol, mas a coisa andou, ou melhor, correu.

No segundo ato, ela começou a dar instruções. 'Espanhol é fácil, foi tranqüilo, dava para entender tudo', garantiu o moreno. Mas ele não sabia que o 'argentinês' tem uma particularidade que faria a diferença no seu esquenta. Em espanhol, a gente gruda os pronomes que substituem os objetos direto e indireto quando o verbo está no imperativo. E depois se acentua a nova palavra ainda no pedaço que compõe o verbo. Por exemplo: cuéntamelo (contar + me + lo). Mas na Argentina - e no Uruguai é igualzinho -, é bem diferente. Nossos vizinhos subvertem a gramática e fazem da última sílaba, a tônica. Cuéntamelo em 'argentinês' soa contamelô.

Pois bem, além de desconhecer essa manha dos hermanos, ele ainda escutou um ´N´ inexistente na súplica ofegante da argentina, que entrou nos seus ouvidos como chupa melóóóón!!!!.

Meu amigo só descobriu há pouco que errou o alvo em uns dois palmos para cima. Mas garante que matou a fome da portenha.

sábado, 12 de abril de 2008

Perfil grego, cara-de-pau inglesa



Toda história tem pelo menos duas versões. E a cara-de-pau impera na hora de ir contra todas as provas e querer fazer do lado torto, o certo. Veja só a briga entre Inglaterra e Grécia pelas esculturas do Partenon.

Em 2004, visitei a Acrópole e o British Museum com intervalo de menos de um mês. Em Atenas, tentava recompor com a imaginação e um guia as muitas peças que faltavam no Partenon. Se o templo fosse gente diria que ele comeu não o pão que o diabo amassou, mas o que ele vomitou. Construído no século V antes de Cristo, foi bizarramente convertido em paiol pelos turcos quando eles mandavam lá. Virou alvo militar, óbvio. Foi bombardeado e despedaçado em 1687.

Essa foi sua primeira grande destruição. Culpa dos venezianos. A segunda, de acordo com o governo grego, tá na conta do inglês Lord Elgin. Entre 1801 e 1810, ele, embaixador no Império Otomano até 1805, carregou para sua terra metade das esculturas ainda de pé na Acrópole. Em Atenas, lê-se e ouve-se os maiores impropérios contra o sujeito. Em Londres, ele é o cara. Se não fosse por ele, a Humanidade não poderia admirar detalhes daquela maravilha. Eles teriam virado pó pela ação do tempo, da chuva e da poluição. Isso tá escrito numa plaquinha em galeria no térreo do British Museum.

Com todo o óleo de peroba que há na Terra, o redator da homepage do museu enumera e rebate todas as acusações contra o diplomata. "Lord Elgin roubou a coleção". Nããããão, de jeito nenhum. Os turcos autorizaram. "Lord Elgin conseguiu as peças com suborno e pressões". Imagina?! Dar presentes para autoridades locais era costume na época e "os relacionados com as esculturas" só custaram 600 libras. "Lord Elgin vendeu tudo para o governo britânico". "Isso não é verdade". Ele estava arrasado financeiramente, coitado, e pediu 73600 libras para cobrir os custos de anos de dedicação à cultura grega. Foi julgado e absolvido. Pelo Parlamento Britânico. Em troca, teve que levar para casa, rindo, menos da metade do que pediu: 35 mil libras.

Conforme o texto avança, o redator veste ainda mais a camisa para defender porque raios os "mármores do Elgin" -- as obras de arte gregas passaram a ser conhecidas assim na Inglaterra -- estão melhor em Londres que em Atenas. E se supera no argumento definitivo: "A Grécia moderna não poderia ter embaixador melhor no mundo que as esculturas do Partenon no British Museum, bem expostas, num museu de entrada grátis, onde são admiradas por mais de 4,6 milhões de pessoas por ano".


o grego

e vídeo que mostra a galeria com parte do acervo "do Elgin" no British Museum.

sábado, 5 de abril de 2008

Hansel & Gretel e o líder sindical Calamar



Era uma vez, dois irmãos que viviam na floresta. Num belo dia de sol, Hansel e Gretel saíram para buscar gravetos para a lareira e se perderam.

Hansel e Gretel são nossos amigos de infância. Muitos de nós sabíamos contar sua história antes de aprender a juntar B com A. Para nossa sorte, algum tradutor de bom senso percebeu que não dava para enfiar goela abaixo de crianças brasileiras em fase de alfabetização personagens batizados em alemão. Assim, Hansel e Gretel viraram simplesmente João e Maria.

Descobri isso em uma viagem há quatro anos. Mas até hoje essa gentileza que o tradutor fez com a gente gera calorosas e divertidas discussões com meus amigos latinos. "Como vocês traduzem nomes famosos no mundo inteiro?", perguntam com um quê de indignação. O tema é polêmico. Hansel e Gretel são intocáveis. E por que não o é a Coroa Britânica? A Família Real mais famosa do mundo foi rebatizada pelo povo que fala espanhol. Para eles, o herdeiro do trono e sua nobilíssima mãe são o Príncipe Carlos e a Rainha Isabel. Quando trabalhei na Revista Época de Madri brigava muuuuuito para convencer o editor a não tascar um G no Inácio do Lula. Mas o jornal espanhol El País já fez pior. Na época em que nosso presidente era líder sindical, traduziram seu apelido. E o homem virou Calamar, o molusco, sim, o fruto do mar que a gente come. Isso ninguem me contou, eu mesma li.


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Para finalizar, uma listinha de alguns personagens famosíssimos de desenhos animados que periga você achar que são uns desconhecidos se escutar o nome em espanhol. Néstor, um novo amigo argentino, me ajudou a refrescar a memória (che, gracias!).

Pica-pau - Pájaro Loco
Irmãos Metralha - Chicos Malos (´garotos malvados´)
Piu-piu - Piolín
Frajola - Gato Silvestre
Professor Pardal - Giro Sintornillos (algo como ´porca sem parafuso´)
Tio Patinhas - Tío Rico ou Rico MacPato na América Latina e Tío Gilito ou Gilito MacPato na Espanha
Huguinho, Zezinho e Luisinho - Hugo, Paco e Luis na América Latina e Juanito, Jorgito e Jaimito na Espanha
Gastão - Glad Consuerte na América do Sul, Narciso Bello na Espanha e Pánfilo Ganso no México
Ligeirinho - Rapidín

Conheci um chileno, do grupo dos sedentos por viagem, que sempre desfilou pelo continente seu apelido inspirado em um simpático personagem da Disney. Por conta de seu cabelo negro, comprido e desgrenhado, ganhou um novo nome: Tribilín. Carregava-o com orgulho até o dia em que eu lhe contei como chamamos esse amigo do Mickey por aqui: Pateta.

Avisos insólitos aos navegantes: manobra radical


Os avisos insólitos estão de volta! Do Panamá, trouxe esse folheto que convida para loucas aventuras entre árvores, rios e cachoeiras. Mas nada de sexo selvagem na relva. A palavrinha do título significa desfiladeiro ou passagem estreita em espanhol. Só isso.

domingo, 30 de março de 2008

Pret-à-porter sobre trilhos



Se não dá para ser perfeito, dá teu jeito, improvisa. E foi o que fizeram os comissários de bordo do trem que sai de Águas Calientes, onde fica Machu Picchu, para Cusco, no Peru.

Cansadas, voltávamos eu e uma amiga de um dia de maratona morro acima. Como não queríamos perder nada da visita às ruínas mais famosas do continente, já estávamos na rua antes de o sol aparecer. Era setembro de 2007. Madrugamos para pegar o ônibus das 5h30 e garantir que estaríamos entre as 400 pessoas autorizadas a subir Waynapicchu, a montanha colada a Machu Picchu, a que se vê em todas as fotos panorâmicas. Já tínhamos decidido ignorar os conselhos comprovadamente exagerados de um amigo peruano: "volta e meia morre um turista lá". Foi tranqüilo, havia degraus e cordas para tudo que é lado. O fôlego só perdemos com a vista das alturas da incrível construção inca.

Na volta, aí sim mortas de cansaço, tentamos dormir no trem. Impossível. O show ia começar.

Como num avião, os comissários de bordo ofereciam produtos aos passageiros. Mas não era só entregar aquele catálogo, não. A apresentação era mais caprichada e calorosa. Afinal, meio trem ja estava bocejando. Ninguém ia dar a mínima para o folheto.

Eis que o funcionário que há pouco nos servira um café abre abruptamente a cortina que separava o espaço dos assentos do compartimento dos comissários. E pára de lado, ombro esquerdo levemente inclinado para baixo, mãos no bolso. Aperta os olhinhos e arqueia a sombrancelha. Metido num suéter preto e branco ele dispara pelo corredor pisando forte e lançando olhares 43 pelo vagão lotado. Era um desfile de moda para vender roupas de alpaca, animal que dá uma lã finíssima e cara. Apesar de passar longe dos padrões Armani, nosso comissário despertou aplausos e gritinhos das passageiras, o que só fez aumentar sua autoconfiança.

Ele estava super à vontade. O mesmo não se pode dizer da sua colega. Tímida, tentava compensar a falta de jeito com sorrisos. Para sua sorte, havia desinibidas a bordo. Duas adolescentes peruanas nem titubearam quando chegou o convite. Se enfiaram em ponchos e casacos e também distribuíram mãos na cintura e olhares por cima do ombro vagão adentro. A platéia esfriava com as entradas femininas. Mas aí voltava o aspirante a rosto Calvin Klein para inflamar a galera.

E tome olhinhos apertados e cara de mau.