segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Obra de fachada




Não sei a origem da expressão, mas que o clero espanhol ajudou a difundir as obras de fachada, ah ajudou. Esse belo prédio da foto é, na verdade, puro cenário. Por trás da cortinas nas janelas não tem ninguém, nunca. O casarão tem apenas três metros de profundidade e foi erguido, há séculos, só para combinar com o resto das edificações e fechar o quadrado que forma a praça principal de Santiago de Compostela, onde fica a famosa catedral.


Tem apenas três metros de profundidade

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Estranhezas praianas

Mar calmo + calor + sol = praia cheia. A resposta está certa no Rio de Janeiro. Mas essa equação tem outro resultado planeta afora.  É curiosa a diferença da relação das pessoas com a praia em diversas cidades litorâneas. No Uruguai, por exemplo, só se põe o pé na areia no verão. O clima pode brindar os uruguaios com um veranico maravilhoso que a praia fica deserta. Em abril, caminhei longamente pela orla de Montevidéu debaixo de sol de 30 graus e ao chegar a Pocitos eu e Daniel éramos solitários observadores da areia vazia. Nenhum dos milhares de moradores daquele bairro, cuja orla lembra Copacabana tamanha a quantidade de prédios, aproveitava aquele dia lindo para dar um mergulho.




Punta del Este, o balneário de ricaços uruguaios e argentinos, parecia cenário de filme... de suspense. Centenas de edifícios modernos, com as janelas e varandas envidraçadas brilhando, podiam ser a pista de que algo terrível acontecera... que toda a cidade fora evacuada na véspera da minha chegada. De novo, céu sem nuvens, sem vento, poucas ondas e ninguém na praia. Aí surge um senhor no calçadão, com  um 'Rio de Janeiro' estampado na camiseta, e revela o mistério: "É que aqui as pessoas não sabem aproveitar esse presente de Deus... acabou o verão ninguém vem pra cá, mesmo que faça um calorão".




Mas basta mudar de lugar para ver que os estranhos somos nós. Tente explicar a um espanhol por que a gente não faz top less na praia se os biquínis já mostram quase tudo. Eles não entendem o frisson que um peito de fora pode provocar numa Ipanema lotada. Lá, tirar o sutiã é ato que não obedece a critérios estéticos: senhoras gordinhas também ficam bem à vontade. Mas a calcinha tem que ser grande, fio dental é raro na Barceloneta, por exemplo.

Não me esqueço da cara de assombro de um colombiano ao pisar na areia do Posto 10 num domingo de sol escaldante, às 14h. "Nunca vi uma praia tão lotada em toda a minha vida", disse o amigo, meio assustado, diante da paisagem banal para qualquer carioca.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Antimijões

Sabe aquele cheiro horrível de xixi que fica impregnado nos cantões de ruas mais escondidas? Que tal castigar os mijões fazendo com que eles carreguem consigo esse odor que adoram despejar por aí? Pois foi pensando nisso que a prefeitura de Amsterdã instalou esses dispositivos antiurina. Quando o porcalhão começa a se aliviar, o jato bate na placa de metal e volta para ele.

Vitrines que escondem


Do início do século XX até 1986, se ali já estivesse espetada, essa placa seria cínica e sádica. Seria algo como um "Bem-vindos ao inferno". Afinal, o que esperava um homem ao ingressar no presídio de Punta Carretas, em Montevidéu? As salas e celas de onde ecoavam gritos de torturados deram lugar a prateleiras para onde hoje conflui, feliz, a classe média uruguaia. Saíram as algemas, entraram os cartões de crédito. Desde 1994, o edifício virou um shopping center. Do horror das grades só sobraram a fachada principal e um portal da antiga construção. E nada de placas informando o que diabos significa um arco de pedra monumental dentro do shopping. Afinal, nada de estragar o prazer consumista. O máximo que a jovem atendente do serviço ao cliente revela é que houve uma fuga cinematográfica ali. Dois cliques na Internet e descubro que foi em 1971, quando mais de 100 guerrilheiros do grupo tupamaros conseguiram a liberdade. Uma história escondida pelas vitrines.

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ivo viu a uva ou Evita te quiere



Rua Lafinur 2988, Palermo, Buenos Aires. Numa sala escura, um vídeo em preto e branco mostra as imagens capturadas por uma câmera em movimento. Enquanto percorre a larga avenida, ela registra uma multidão impossível de calcular organizada em uma fila. São homens e mulheres vestidos com sua melhor roupa. Muitos choram. Onde não há fila, há flores, que tomavam completamente algumas ruas e formavam montanhas na entrada do Congresso argentino. A tela se apaga e nela acende uma mensagem: "Convido-os a me conhecer. Evita Perón".


O impacto na primeira sala do Museo Evita já ganha o visitante. Dá vontade de nem piscar durante o vídeo introdutório sob pena de se perder algum detalhe impressionante. Por 12 pesos, abrem-se as portas do que já foi o Hogar de Transito número 2, um lar provisório onde a primeira-dama argentina acolhia mulheres e crianças sem-teto. Lá elas recebiam cama e comida até que trabalho e casa fossem providenciados para as famílias. A exposição de fotos, roupas e móveis é ufanista, afinal o local é mantido pela Fundação de Pesquisa Histórica Eva Perón, fundada pelas irmãs da homenageada. Uma concessão é feita: vitrine exibe capas de livros que a retratam como santa (com direito àquela manta na cabeça, representação clássica das santas católicas) e outros que a pintam como demoníaca. Mesmo assim o lugar é imperdível e uma aula sobre como montar um culto à personalidade: não há obra social que deixe dúvida sobre a quem se deveria agradecer. Da Fundação Evita criou-se a Ciudad Evita, o Policlínicio Presidente Perón, planejou-se o Hospital de Niños Evita, entre muitos outros. Nos Hogares de Transito, o casal presidencial batizava os bebês nascidos ali. A foto de uma das cerimônias está na parede.


Evita não morreu na Argentina. Pergunte a um hermano o que ele fazia às 20h25 do dia 26 de julho de 1952. Quem nem tinha nascido também sabe que naquele momento morria, aos 33 anos, a "chefe espiritual da Nação". Foi assim que o locutor deu a notícia, no dia seguinte à morte. E, não duvide, é fácil achar quem saiba repetir a notícia dada pela rádio tal qual ouvida há 57 anos. Também, pudera, na época de Perón, a frase das cartilhas de alfabetização mais copiada pelas crianças era "Evita te quiere".


P.S.1: Para assistir a um vídeo de 5 minutos do funeral de Evita, clique aqui.
P.S.2: O que aconteceu com o corpo dessa mulher após a sua morte é ainda mais inacreditável que sua história: ele 'sumiu', depois foi sepultado com nome falso em Milão e só enterrado em Buenos Aires na década de 70. A saga está em "Santa Evita", de Tomás Eloy Martinez, para ser devorado em poucos dias de tão bom.

sábado, 19 de julho de 2008

Eu fui à Lua



Foi com essa sensação que deixei o Planetário do Rio sábado passado. Virgem de sessão de cúpula, me extasiei com os astros na minha primeira vez. Quando as luzes se apagam, o céu sobre a Lagoa cobre o teto da sala de projeção, que logo se escurece, te apresenta ao universo e te leva para um passeio pelo sistema solar.

Antes da decolagem, fiz um rápido reconhecimento do terreno no Museu do Universo. Em cinco minutos, descobri os gnômons e as clepsidras (relógios de sol e de água, respectivamente) e vi uma palavra que me encantou quando a ouvi pela primeira vez na minha adolescência tomar forma: astrolábio (instrumento que mede a altura dos astros e a distância entre eles).

Aprendi que o homem só não vai a Marte porque levaria quase cinco anos só para dar um pulinho lá e voltar decepcionado porque não tem nada demais por aquelas bandas. A temperatura, em alguns pontos, é parecida com a daqui: 27 aprazíveis graus. Ah, e que temos mais uns 5 bilhões de anos para fazer da Terra um lugar melhor para se viver. Esse é o tempo estimado para o sol se expandir e tornar isso aqui um inferno, literalmente.

Essas informações não estão na sessão, são privilégio de quem tem um amigo astrônomo. O ápice do tour pelas estrelas o Bruno deixou para o final, na laje do Planetário. É onde estão espetados uns casulos cujos tetos se abrem para deixar a luz da lua iluminar a escuridão lá dentro: são as cabines dos telescópios. Comecei por Júpiter, que é o pontinho mais brilhante que vemos no céu. Mergulho a cara na lente e em um segundo aquele grão vira um planeta! Vi também os aglomerados Borboleta e Caixinha de Jóias, batizado assim porque suas estrelas são coloridas.

E por último ela, a Lua. Na sessão de cúpula me contive, mas nessa hora soltei o oooohhhhh que o espetáculo merece. Ela está tão incrivelmente pertinho de nós que dá até para ver sua textura. A ilusão é de que basta esticar a mão para tocá-la. É difícil relatar a sensação. Melhor que tentar descrever o indescritível é cortar esse texto aqui e mandar quem me lê para o espaço! Anote aí: a sessão de cúpula acontece de terça a quinta das 18h30 às 19h30, mas só com céu claro. E o bilhete para essa viagem custa só R$ 12. Explore o site do Planetário e faça outras descobertas: www.rio.rj.gov.br/planetario.

sábado, 21 de junho de 2008

Avisos insólitos aos navegantes: fora, porcalhões


Sujismundos, tremei! De frio ou medo. Em uma rua do bairro San Blás, em Cusco, Peru, vizinhos em fúria pregaram esse cartaz no muro, onde advertem sobre o castigo para quem insistir em jogar lixo ou fazer cocô na via pública: prisão ou um balde de água fria na cabeça.

Amigos sem fronteira


Sábado passado me enfiei num ônibus às 23h15 para Campinas. Foram quase sete horas de travessia insone. Cheguei às 5h40 de domingo com as olheiras ainda mais escuras, e trêbada de sono. Voltei para casa 30 horas depois. Cansada, mas feliz. Fui dar um abraço numa amiga que vai morar nos Estados Unidos. A maratona me fez lembrar de uma das coisas mais bacanas que já fiz na vida.

Em outubro de 2004, tentava curar a ressaca de Madri. Meu corpo estava no Rio, mas a cabeça deixei na Rua Marqués de Lozoya. Foi nesse endereço que cumpri o último rito de passagem de filha para mulher independente: tive que aprender a me virar nas tarefas domésticas, não sem antes tingir minhas meias e blusas brancas de azul claro, graças à calça jeans que as acompanhava na máquina de lavar. (Sim, papai e mamãe sempre me deram boa vida!) Lá também tomei meu primeiro porre. Em fevereiro daquele ano, Marce, Esteban, Caro, Rodrigo e Renzo entraram comigo no apartamento. E não saíram mais da minha vida.

Três semanas depois, em novembro, com o coração aos pulos, desço do táxi em Buenos Aires, de madrugada. Toco o interfone e abraço a Caro, às lágrimas. Meu cúmplice e mentor da surpresa internacional, o peruano Renzo, já havia chegado. Doentes de saudade, resolvemos tomar um avião e surpreender os argentinos, que não víamos desde agosto. Simples assim, como se fôssemos dois cariocas combinando uma ida à praia no Rio. Marce, incrédula, tropeçou em nós dois na rua, arrancada de um jantar às pressas pela Caro, que inventou um problema urgente para convencê-la a aparecer na sua casa à 1h.

No dia seguinte, Esteban chegaria de Mendoza para uma prova, igualmente desavisado sobre os visitantes. Caro e Marce esperavam-no na plataforma da rodoviária. Mas quem elas viram primeiro, descendo de outro ônibus, foi o Rodrigo. O gaúcho foi laçado para a aventura na fronteira, recém-chegado da Europa. Ganhou um grito de alegria da Caro e um abraço trêmulo da Marce, assombradamente emocionada com a abrupta reunião da turma.

De lá para cá, sigo meus Fab Five pela América Latina: com eles já mergulhei no Caribe, subi o Wayna Picchu para ver as mais famosas ruínas incas e descobri a montanha arco-íris de Purmamarca. Através deles, conheci mais gente interessante. Por eles, transformo em virtual a distância real que nos separa.

domingo, 8 de junho de 2008

A matemática dos olhos verdes

Essa é de um amigo sedento que costuma matar sua sede nas paisagens da costa fluminense.

- Ele chegou! - anunciou a assessora.

A secretária de Admininstração suava. O terror das prefeituras já estava na recepção. O órgão externo responsável pelo controle das contas não teve pena daquele pequeno município litorâneo e mandou seu inspetor mais rígido para virar do avesso planilhas, folha de pagamento, licitações. A secretária já sabia que nas finanças da cidade 2 + 2 nem sempre davam 4. E enxugava a gota gorda de suor que escorria pelo pescoço.

- Bom Dia. Quero ver todos os processos de licitação de janeiro a dezembro deste ano - ordenou o inspetor.

- Mas é muita papelada. O senhor não prefere conferir um mês de cada vez? - disse a secretária.

- Não. Quero tudo nessa mesa em meia hora.

Em meia hora quilos de papel começaram a entrar pela sala em um carrinho desses de transportar caixas. Eram tantos processos que nem dava para ver quem em estava atrás daquela pilha. Quando o 0001/2007 baixou na mesa deu para ver os primeiros fios de cabelo louro. Ao descarregar o 0002/2007, surgiram olhos cor de esmeralda emoldurados por cílios imensos. No 0005/2007, os peitos quase pularam do decote em cima do inspetor. Aquele baixinho barrigudo não ficaria imune a Ana Maria. Não havia funcionário que não salivasse ao vê-la desfilar na repartição.

- O senhor deseja mais alguma coisa? - perguntou a funcionária, bem de-va-ga-ri-nho, apoiando os cotovelos na mesa.

- Não - disse ele, que baixou os olhos e continuou na sua fúria investigadora.

Passou o primeiro, o segundo, o terceiro dia e nada. O cara era uma rocha. Nada o desconcentrava. Pior, notaram que quando Ana Maria entrava na sala a sanha inquisidora do inspetor aumentava. O plano de mandar a gostosa distraí-lo foi por água abaixo.

No quarto dia, Ana Maria não apareceu. Voltou para sua função. O fiscal não parava de fazer anotações e pedir xerox dos processos. Crescia a certeza de que a prefeitura seria condenada. A secretária resolveu escalar logo um advogado para acompanhá-lo. Foi decidido que Adriano seria a sombra do inspetor. Na quinta-feira, ele apareceu com a folha de pagamento de junho.

- Bom dia - saudou o advogado, um jovem alto, de cabelos negros e olhos verde-claros, realçados pela pele morena.

- Bom dia! - respondeu o inspetor, numa simpatia jamais vista.

A inspeção ainda demorou bastante. Mas tudo mudou depois daquela quinta-feira. O inspetor virou amigo da secretária. Em vez de caretas, distribuía sorrisos. Em seu relatório, concluiu que as contas do município eram transparentes, claras... como os olhos de Adriano.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Rei do Rio

Eles estão por toda parte. Onde quer que você vá no Rio tem um gaúcho. Na casa em frente a dos meus pais tinha um do tipo caricatura, com bigodão. No meu trabalho há pelo menos 'trées'. A namorada do meu irmão não é de lá mas usa 'capaz' como vírgula e bebe chimarrão com a mesma freqüência com que eu tomo mate gelado. Hoje, a tietagem explícita de uma colega ao mais carioca dos gaúchos -- que ela encontrou na praia, claro -- me levou de volta a minha primeira viagem a Porto Alegre, em 2006.

O papo começou no Jornalismo e acabou no futebol.

- O cara ganhou uma Libertadores e o Campeonato Mundial para o Grêmio, era ídolo do Brasil todo, mas foi para o Rio e mudaram o nome dele - me dizia o gremista, chateado.

- Ele não é Renato Gaúcho! Ele é O Renato!!! - completou, indignado, e ainda não resignado, 20 anos após o craque ter se mudado para cá e ganhado o apelido que o diferenciava dos xarás da bola.

- Os outros que mudassem de nome, ele NÃO!!!

Para mim é impossível imaginar a arquibancada festejando o jogador sem aquela cadência RENAAAATO... GAÚÚÚÚÚCHO, batendo palmas com as mãos para cima. Não dá para soltar um RENAAAATO PORTALUUUUUPPI. Mas ele tá identificado assim na página oficial do Grêmio na Internet, na galeria dos heróis do clube. Só no pé da matéria admitem que ele "carregaria para o resto da carreira" o apelido famoso. Orgulhosos, os sulistas não reconhecem na alcunha uma homenagem às coisas boas do Sul. Quando ele aparece por lá, o Olímpico ainda vibra de saudade. Soltam um RENATOOOO ou simplesmente NAAAAAAAATO, que, fala sério, é fofo demais e não combina com ele.

Pois nunca se soube que o atleta se incomodasse com o novo nome. Graças a esse batismo as novas gerações sabem sua origem já que ele adotou o carioca way of life: virou craque no futevôlei, fez da praia seu quintal e, aos pouquinhos, foi transformando a marra em malandragem. O sotaque ele botou na mala e despachou para o Rio Grande do Sul faz tempo.

Tudo bem, se os riograndenses se ofendem com o Gaúcho que grudamos nele, podemos mudar isso. Agora ídolo também dos tricolores daqui e com a mão já roçando a taça da Libertadores, teremos orgulho de rebatizá-lo, definitivamente, de Renato Carioca. E fazer ecoar um ARRA, URRU, O RENATO É NOSSO!!!

P.S.: Pai, Dinho, não troquem a fechadura de casa. No fundo do meu peito continua batendo, calada, uma cruz de malta. Eu juro!!!!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Babel espanhola

Outro dia revelei o mico de um colega que não sabia espanhol e se enrolou com a língua no sentido físico e abstrato da coisa. Mas saber falar o idioma de Cervantes não te livra de enrascadas. Se as diferenças lingüísticas entre Brasil e Portugal já inspiram um milhão de piadas, imagine conviver com gente de 10 nacionalidades diferentes que falam espanhol? No afã de aumentar meu vocabulário, fui incorporando um regionalismo aqui, outro ali quando vivi em Madri e me metendo em situações embaraçosas. Às vezes soltava uma frase cândida na Espanha que era a maior sacanagem na Argentina.

Logo que cheguei, o problema era a pronúncia. Para que fazer o CH soar como TCH se a palavra era igualzinha em português, por exemplo? Se eles entendem o meu chocolate, tá bom, pensei. Fui usar a mesma lógica para o RR. `Estava atrasada e tive que correr por todo el metro´. Também tasquei um ´Rubinho não é bom corredor´. Sem vibrar a língua no céu da boca, o meu correr e corredor soaram como coger e cogedor para eles. Se estivesse só no meio de espanhóis, menos mal, mas diante de 18 latinos... O grupo explodiu numa gargalhada feroz. Coger é transar e cogedor é garanhão na América do Sul. Tinha acabado de dizer que eu era uma versão sobre trilhos da ´Dama do Lotação´.

A pior armadilha foi um iogurte de morangos. Li lá na embalagem: con trozos de fresa. Não ia continuar usando a palavra pedazos si existia outra, mais diferente do português, mais sofisticada. Legal, desde aquela compra no supermercado meus pedaços viraram trozos. Até que um dia depois do jantar, eu e três argentinos reunidos na cozinha, virei para o meu amigo -- que é praticamente um modelo Armani -- e pedi com a maior gentileza do mundo para que ele me desse, por favor, un trozo de seu chocolate. Ele me respondeu com um sorriso sacana e um dueto de gargalhadas ao fundo. Na verdade eu pedira aquilo dele. Ai, ai.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Chamem as garças

No Norte do estado do Rio de Janeiro, um prefeito estava eufórico com a despoluição do rio que corta a cidadezinha. E queria dar publicidade para a façanha de qualquer maneira. O tema dominou a reunião de secretariado. O desafio empolgou as autoridades. Algumas horas e litros de cafezinho depois a idéia nasceu. E contagiou o alcalde.

- Vai dar até no Jornal Nacional! - emocionou-se o prefeito, já sonhando com a imagem na abertura do telejornal.

A prova de que o curso d´água outrora fedorento estava limpo era linda e singela e comoveria o editor-chefe. Estavam todos convencidos disso.

- Vamos jogar umas garças para nadar lá e aí chamamos a tevê - gritou um secretário, como quem diz eureca!

Uma alma de bom senso na mesa sugeriu primeiro um teste. Foi difícil conter os empolgados, mas, enfim, a turma cedeu. Não sem antes exigir a execução de mais um detalhe.

- Depois a gente compra uns peixes para colocar no rio também - acrescentou o gênio.

A idéia morreu na nascente do rio: a garça virou almoço de vira-lata em dois dias.

A língua capciosa

Um amigo aqui do Rio decidiu passar as férias no litoral catarinense. Já faz um bom tempo, na época os argentinos nem sabiam o que era corralito nem tinham inventado o panelaço. Um peso valia um dólar e eles invadiram a nossa praia com mais fome que nunca. A farra por conta do câmbio era tanta que o apelido deles nas areias lá do Sul era dame dos. Achavam tudo barato e pediam sempre em dobro: dois milhos, duas cervejas, duas caipirinhas...

A praia estava cheia de jovens argentinas calientes também. E uma delas se encantou pelo meu amigo alto e dourado pelo sol. Ele não sabe nem contar em espanhol, mas a coisa andou, ou melhor, correu.

No segundo ato, ela começou a dar instruções. 'Espanhol é fácil, foi tranqüilo, dava para entender tudo', garantiu o moreno. Mas ele não sabia que o 'argentinês' tem uma particularidade que faria a diferença no seu esquenta. Em espanhol, a gente gruda os pronomes que substituem os objetos direto e indireto quando o verbo está no imperativo. E depois se acentua a nova palavra ainda no pedaço que compõe o verbo. Por exemplo: cuéntamelo (contar + me + lo). Mas na Argentina - e no Uruguai é igualzinho -, é bem diferente. Nossos vizinhos subvertem a gramática e fazem da última sílaba, a tônica. Cuéntamelo em 'argentinês' soa contamelô.

Pois bem, além de desconhecer essa manha dos hermanos, ele ainda escutou um ´N´ inexistente na súplica ofegante da argentina, que entrou nos seus ouvidos como chupa melóóóón!!!!.

Meu amigo só descobriu há pouco que errou o alvo em uns dois palmos para cima. Mas garante que matou a fome da portenha.

sábado, 12 de abril de 2008

Perfil grego, cara-de-pau inglesa



Toda história tem pelo menos duas versões. E a cara-de-pau impera na hora de ir contra todas as provas e querer fazer do lado torto, o certo. Veja só a briga entre Inglaterra e Grécia pelas esculturas do Partenon.

Em 2004, visitei a Acrópole e o British Museum com intervalo de menos de um mês. Em Atenas, tentava recompor com a imaginação e um guia as muitas peças que faltavam no Partenon. Se o templo fosse gente diria que ele comeu não o pão que o diabo amassou, mas o que ele vomitou. Construído no século V antes de Cristo, foi bizarramente convertido em paiol pelos turcos quando eles mandavam lá. Virou alvo militar, óbvio. Foi bombardeado e despedaçado em 1687.

Essa foi sua primeira grande destruição. Culpa dos venezianos. A segunda, de acordo com o governo grego, tá na conta do inglês Lord Elgin. Entre 1801 e 1810, ele, embaixador no Império Otomano até 1805, carregou para sua terra metade das esculturas ainda de pé na Acrópole. Em Atenas, lê-se e ouve-se os maiores impropérios contra o sujeito. Em Londres, ele é o cara. Se não fosse por ele, a Humanidade não poderia admirar detalhes daquela maravilha. Eles teriam virado pó pela ação do tempo, da chuva e da poluição. Isso tá escrito numa plaquinha em galeria no térreo do British Museum.

Com todo o óleo de peroba que há na Terra, o redator da homepage do museu enumera e rebate todas as acusações contra o diplomata. "Lord Elgin roubou a coleção". Nããããão, de jeito nenhum. Os turcos autorizaram. "Lord Elgin conseguiu as peças com suborno e pressões". Imagina?! Dar presentes para autoridades locais era costume na época e "os relacionados com as esculturas" só custaram 600 libras. "Lord Elgin vendeu tudo para o governo britânico". "Isso não é verdade". Ele estava arrasado financeiramente, coitado, e pediu 73600 libras para cobrir os custos de anos de dedicação à cultura grega. Foi julgado e absolvido. Pelo Parlamento Britânico. Em troca, teve que levar para casa, rindo, menos da metade do que pediu: 35 mil libras.

Conforme o texto avança, o redator veste ainda mais a camisa para defender porque raios os "mármores do Elgin" -- as obras de arte gregas passaram a ser conhecidas assim na Inglaterra -- estão melhor em Londres que em Atenas. E se supera no argumento definitivo: "A Grécia moderna não poderia ter embaixador melhor no mundo que as esculturas do Partenon no British Museum, bem expostas, num museu de entrada grátis, onde são admiradas por mais de 4,6 milhões de pessoas por ano".


o grego

e vídeo que mostra a galeria com parte do acervo "do Elgin" no British Museum.

sábado, 5 de abril de 2008

Hansel & Gretel e o líder sindical Calamar



Era uma vez, dois irmãos que viviam na floresta. Num belo dia de sol, Hansel e Gretel saíram para buscar gravetos para a lareira e se perderam.

Hansel e Gretel são nossos amigos de infância. Muitos de nós sabíamos contar sua história antes de aprender a juntar B com A. Para nossa sorte, algum tradutor de bom senso percebeu que não dava para enfiar goela abaixo de crianças brasileiras em fase de alfabetização personagens batizados em alemão. Assim, Hansel e Gretel viraram simplesmente João e Maria.

Descobri isso em uma viagem há quatro anos. Mas até hoje essa gentileza que o tradutor fez com a gente gera calorosas e divertidas discussões com meus amigos latinos. "Como vocês traduzem nomes famosos no mundo inteiro?", perguntam com um quê de indignação. O tema é polêmico. Hansel e Gretel são intocáveis. E por que não o é a Coroa Britânica? A Família Real mais famosa do mundo foi rebatizada pelo povo que fala espanhol. Para eles, o herdeiro do trono e sua nobilíssima mãe são o Príncipe Carlos e a Rainha Isabel. Quando trabalhei na Revista Época de Madri brigava muuuuuito para convencer o editor a não tascar um G no Inácio do Lula. Mas o jornal espanhol El País já fez pior. Na época em que nosso presidente era líder sindical, traduziram seu apelido. E o homem virou Calamar, o molusco, sim, o fruto do mar que a gente come. Isso ninguem me contou, eu mesma li.


*****************

Para finalizar, uma listinha de alguns personagens famosíssimos de desenhos animados que periga você achar que são uns desconhecidos se escutar o nome em espanhol. Néstor, um novo amigo argentino, me ajudou a refrescar a memória (che, gracias!).

Pica-pau - Pájaro Loco
Irmãos Metralha - Chicos Malos (´garotos malvados´)
Piu-piu - Piolín
Frajola - Gato Silvestre
Professor Pardal - Giro Sintornillos (algo como ´porca sem parafuso´)
Tio Patinhas - Tío Rico ou Rico MacPato na América Latina e Tío Gilito ou Gilito MacPato na Espanha
Huguinho, Zezinho e Luisinho - Hugo, Paco e Luis na América Latina e Juanito, Jorgito e Jaimito na Espanha
Gastão - Glad Consuerte na América do Sul, Narciso Bello na Espanha e Pánfilo Ganso no México
Ligeirinho - Rapidín

Conheci um chileno, do grupo dos sedentos por viagem, que sempre desfilou pelo continente seu apelido inspirado em um simpático personagem da Disney. Por conta de seu cabelo negro, comprido e desgrenhado, ganhou um novo nome: Tribilín. Carregava-o com orgulho até o dia em que eu lhe contei como chamamos esse amigo do Mickey por aqui: Pateta.

Avisos insólitos aos navegantes: manobra radical


Os avisos insólitos estão de volta! Do Panamá, trouxe esse folheto que convida para loucas aventuras entre árvores, rios e cachoeiras. Mas nada de sexo selvagem na relva. A palavrinha do título significa desfiladeiro ou passagem estreita em espanhol. Só isso.

domingo, 30 de março de 2008

Pret-à-porter sobre trilhos



Se não dá para ser perfeito, dá teu jeito, improvisa. E foi o que fizeram os comissários de bordo do trem que sai de Águas Calientes, onde fica Machu Picchu, para Cusco, no Peru.

Cansadas, voltávamos eu e uma amiga de um dia de maratona morro acima. Como não queríamos perder nada da visita às ruínas mais famosas do continente, já estávamos na rua antes de o sol aparecer. Era setembro de 2007. Madrugamos para pegar o ônibus das 5h30 e garantir que estaríamos entre as 400 pessoas autorizadas a subir Waynapicchu, a montanha colada a Machu Picchu, a que se vê em todas as fotos panorâmicas. Já tínhamos decidido ignorar os conselhos comprovadamente exagerados de um amigo peruano: "volta e meia morre um turista lá". Foi tranqüilo, havia degraus e cordas para tudo que é lado. O fôlego só perdemos com a vista das alturas da incrível construção inca.

Na volta, aí sim mortas de cansaço, tentamos dormir no trem. Impossível. O show ia começar.

Como num avião, os comissários de bordo ofereciam produtos aos passageiros. Mas não era só entregar aquele catálogo, não. A apresentação era mais caprichada e calorosa. Afinal, meio trem ja estava bocejando. Ninguém ia dar a mínima para o folheto.

Eis que o funcionário que há pouco nos servira um café abre abruptamente a cortina que separava o espaço dos assentos do compartimento dos comissários. E pára de lado, ombro esquerdo levemente inclinado para baixo, mãos no bolso. Aperta os olhinhos e arqueia a sombrancelha. Metido num suéter preto e branco ele dispara pelo corredor pisando forte e lançando olhares 43 pelo vagão lotado. Era um desfile de moda para vender roupas de alpaca, animal que dá uma lã finíssima e cara. Apesar de passar longe dos padrões Armani, nosso comissário despertou aplausos e gritinhos das passageiras, o que só fez aumentar sua autoconfiança.

Ele estava super à vontade. O mesmo não se pode dizer da sua colega. Tímida, tentava compensar a falta de jeito com sorrisos. Para sua sorte, havia desinibidas a bordo. Duas adolescentes peruanas nem titubearam quando chegou o convite. Se enfiaram em ponchos e casacos e também distribuíram mãos na cintura e olhares por cima do ombro vagão adentro. A platéia esfriava com as entradas femininas. Mas aí voltava o aspirante a rosto Calvin Klein para inflamar a galera.

E tome olhinhos apertados e cara de mau.

domingo, 23 de março de 2008

A banca pornô

Foi numa esquina movimentada de Buenos Aires, mas bem que poderia ser aqui no Rio.

Era véspera do primeiro dia de férias e o chefe pediu para ontem uma tarefa que ela acreditava ser para dali a dois meses. Teve que trabalhar até as 23h, não havia remédio. Ih... e a encomenda importante para levar na viagem? Já estava até paga. O jeito foi pedir à vizinha para pegar o pacote para ela.

Solícita, a amiga aproveitou que o marido descera com um amigo para comprar bebida para o jantar e terceirizou a tarefa.

- O quê? Você tá me zoando?

- Não, não é piada. É isso mesmo que você ouviu. É na banca aí da esquina. O cara já está esperando ir alguém lá pegar a encomenda.

Os amigos pararam em frente à banca, minuciosamente descrita minutos antes. Era ali mesmo. O estabelecimento também se dedicava a outras mídias além da impressa, outros negócios, digamos. As paredes estavam forradas com DVDs eróticos piratas. Entre anões pervertidos, maratonistas sexuais e afins, pergunta o marido:

- Che, ficou pronta a cópia do 'Chicken Little' e do 'Corcunda de Notre Dame', da Disney? É para aquela moça do 200 que sempre compra desenhos animados aqui.

O jornaleiro olhou para o amigo do cara, sério e vestido de terno e gravata, e despachou logo a dupla enxugando uma gorda gota de suor que escorria pelo pescoço.

- A gente não faz isso aqui, não.

Chicken Little e o Corcunda já não estavam mais ali há algumas horas. Foram fazer companhia a astros pornôs nacionais no porta-malas de um policial das redondezas.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Caribe gaúcho


Já vai tarde o verão que acaba de dar adeus. Aqui no Rio tomamos mais banho de chuva que de mar e até vestimos casaco para enfrentar 16,6 graus há uns dois meses. Eu esperava muito da estação. Voltara de umas férias frustradas no Caribe, em novembro, e queria revanche debaixo do sol carioca.

Antes de aterrissar nas areias da minha cidade, parei três dias em Porto Alegre. A idéia era bater papo com amigos, conhecer melhor a capital do Rio Grande do Sul, sair para dançar. A minha fúria veranista estava guardada para a Cidade Maravilhosa. Mas fui levada para Capão da Canoa, a uma hora e meia da capital sob um céu sem nuvens e o calor com os quais sonhei e não vi em uma semana de férias nos litorais costa-riquenho e panamenho. Me empolguei. Enfiei na mochila biquíni, boné, canga, óculos de sol, chinelo e dois protetores solares ainda lacrados.

Diante da minha animação, meus cicerones gaúchos, constrangidos, passaram a viagem tratando de baixar a bola do litoral rio-grandense. “A praia é horrível”. “Não é banho de mar, é banho de lodo”. “Você entra de branco e sai de preto”. O circo dos horrores incluía até uma tempestade de areia: “Não dá nem para ficar só tomando sol. O vento nordeste é insuportável”. Meu amigo Rodrigo, o irmão e a mãe praticamente pediam desculpas por levar uma moradora do Rio de Janeiro para Aquele lugar.

Eis que numa curva surge o mar de Capão. “Tá verde!”, gritaram, como quem comemora um gol. E não era só: as ondas estavam pequenas, com espuma branquinha e água na temperatura ideal. Ainda tinha uma brisa para aliviar o calor. Um grupo de nativas desconfiadas dava as costas para o mar e se bronzeava no gramado da praça perto da praia. É uma estratégia já habitual, adotada para driblar a tal ventania que, imaginavam, chegaria a qualquer momento.

Depois de uma semana de chuva no Caribe, e várias outras cinzentas no Rio, confesso: peguei a melhor praia dos últimos cinco meses em Capão da Canoa. Colegas gaúchos que vivem aqui duvidam dessa história. Mas eu juro que é verdade!

terça-feira, 18 de março de 2008

Caras e cores da Argentina



Fui matar a minha sede na Argentina. E a saudade sem fim dos amigos que vivem longe.

Em La Cumbre, Córdoba, me esbaldei na festa de casamento de um casal binacional, o peruano Renzo e a argentina María. Para provar que o afeto não tem fronteiras, além do Brasil, Chile, Peru, Espanha e Itália mandaram representantes.

Na Quebrada de Humauaca, no Norte, me surpreendi com a abrupta mudança de montanhas verdejantes para morros áridos com cáctus em profusão. E, em Purmamarca, um arco-íris em forma de rocha, o Cerro de los Siete Colores, alegrou meu dia. Lá também fui apresentada à porção andina do país, com habitantes de pele morena, cabelos negros e traços culturais muito semelhantes aos que vi no Peru.

Por ali também, a quase 4 mil metros de altitude, me perdi no branco das salinas imensas, onde as nuvens pareciam ao alcance das mãos. A sede de fotos era insaciável: eu, toda de preto, contrastava com a brancura daquela lâmina salgada cercada de montanhas. O intenso reflexo da luz do sol praticamente me cegava, mas não me vencia. Mesmo sem identificar direito o que a telinha de minha câmera digital enquadrava, não lhe dava sossego.

E ainda teve a colonial Salta, La Linda, que merece o apelido; a acolhedora Jujuy; as reconstruídas ruínas de La Pucará, em Tilcara; o ônibus antigo e cheio de passageiros com o qual cruzei um rio como se estivesse em uma picape 4x4, a caminho de Iruya; as deliciosas quinoa e carne de lhama de Humauaca.

Mas o melhor da Argentina foram os argentinos.

Inteligente, carinhosa, e ávida por aprender português, a estrela da viagem foi a pequena grande Anaclara, 7 anos de muita perspicácia e curiosidade. Filha dos meus anfitriões, os simpáticos e para lá de gente boa Moncho e Alejandra, moradores de Jujuy. Já em Buenos Aires, aprendi com Néstor, de La Plata, que Herbert Vianna se inspirou em um livro de Jorge Amado para compor Lanterna dos Afogados. Em português perfeito, me contou de seu interesse pela cultura brasileira, que alimenta com programas de televisão verde-amarelos postados na Internet em... Angola! Sua namorada, Rita, me presenteou com a máscara de Kulan, o espírito sedutor feminino dos aborígenes da Terra do Fogo, a quem tenho que honrar.

Os novos amigos foram presente da minha querida hermana Marcela, com quem sempre tenho algo a aprender. Ela, Caro e Esteban compõem minha família argentina.

Pelas cores das montanhas, pelo branco das salinas, pelas antigas e novas amizades grito como o ator de Caballos Salvajes:

LA PUTA QUE VALE LA PENA ESTAR VIVA!